Archive for the ‘@ Omelete’ Category

Vive la Fête @ São Paulo, o show

26/06/06

Vive la Fête @ SP, foto Adelaide Ivánova 

O Vive la Fête tem uma estranha história de amor com o Brasil. A dupla belga, formada em 97, passeia em um universo fora do circuito indie europeu, mas à margem do hype industrial. Ganhou notoriedade no começo dos anos 2000, quando virou xodó do mundo jetsetter da moda, tocando ao vivo em grandes desfiles e recebendo elogios rasgados de estilistas. Ao mesmo tempo engrossou o coro do neo electro safado, adotado pelos modistas na época e enterrado hoje em dia.

Por aqui, escorrendo para fora do ambiente fashion, Els Pynoo e Danny Mommens foram atração do festival pernambucano Abril pro Rock, em 2004. Surpreenderam audiência e crítica, conquistaram aqueles que olhavam torto para a “dupla de electro-rock” e saíram do palco abençoados. Mas, como tudo parece precisar de uma consagração no sudeste cabotino, ainda faltava a aprovação ao vivo da paulistada.

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Velho mestre

18/05/06

Aproveitando o ensejo de filmes da semana passada, vai aí textico sobre o documentário protagonizado por Gianni Ratto, que morreu em dezembro.

Top da última Mostra, e estréia agora no circuitinho. É de chorar.

Gianni Ratto

A mochila do mascate
(publicado originalmente @ Omelete)

Boa parte da audiência deve lembrar de Gianni Ratto como o velho defunto do elevador em Sábado, filme-sensação de Ugo Giorgetti de 1995. Mas sua marca no mundo das artes brasileiras vai para além dessa aparição relâmpago nos cinemas. Pedra fundamental do teatro nacional, Ratto tem agora sua trajetória registrada no documentário A mochila do mascate, primeiro longa da diretora Gabriela Greeb.

O currículo deste mestre, falecido aos 89 anos no fim de 2005, não é modesto. Nascido na Itália, fez seu nome como cenógrafo e fundador do lendário Picollo Teatro de Milão. Radicado no Brasil em 54 – "fugido da Itália", como ele mesmo diz –, Ratto ajudou a consolidar um teatro que respirava o Brasil moderno. Acumulando o papel de diretor, encabeçou o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) e a Cia. Maria Della Costa, e fundou o Teatro dos Sete – seminal grupo teatral dos anos 50/60, que reunia nomes como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Sérgio Britto e Fernando Torres.

Somado ao trabalho nos palcos, Ratto foi personagem forte na luta pela política cultural do país, além de ter cinco livros publicados, sendo o mais importante deles o Antitratado da cenografia, obra fundamental no estudo da área.

É no resgate dessa "pequena" história que o filme se constrói. Ratto, à época das filmagens com seus movimentos debilitados, é guiado pela filha em uma viagem atrás de suas marcas no Brasil e na Itália, seus dois países.

O registro de Gabriela é primoroso, deixando a memória do italiano fluir solta pela tela. O documentário é uma aula de teatro, principalmente nos momentos em que Ratto disseca seus trabalhos em croquis e divaga sobre essa arte, visita o Alla Scalla em Milão ou reencontra velhos companheiros da área. Sua fase brasileira é garantida com depoimentos de Fernanda Montenegro e Maria Della Costa e num bate-papo com Millôr.

Os momentos que escancaram o baú pessoal de Ratto são os mais emotivos, quando o monstro do teatro sai de cena e dá lugar ao homem de quase noventa anos, que visita o velho colégio italiano e relembra a mãe, morta depois de anos sem ver o filho.

Apesar de ser um nome que tem sua obra restrita ao meio teatral, Ratto é o personagem perfeito para um documentário, e o resultado final de A mochila do mascate é palatável para qualquer tipo de público. Nada mais justo para um homem que foi tão importante para o palco brasileiro e que é classificado por Dario Fo, teatrólogo italiano laureado por um Nobel de literatura, como "um mito".

“O concepcionista é uma fraude que dura 24 horas”

18/05/06

A concepção 

Certa vez, em um bate-papo, ouvi uma frase mais ou menos assim: "Se o filme é sempre elogiado pelos quesitos técnicos, quer dizer que o conteúdo é uma merda. Quando alguém vem e diz 'tal filme tem uma fotografia linda', é batata: fodeu".

A concepção, filme nacional que estreou na semana passada, é exatamente isso. Trabalho de filmagem ótimo, trilha sonora incrível. Edição, montagem, luz, figurino, maquiagem… tudo acima da linha. Ele até teve boas ações de marketing "underground", como palavras de ordem grafitadas em muros pela cidade (ok, isso é batido) e com vídeo do manifesto concepcionista no Youtube – à la Bruxa de Blair, mas que ninguém viu.

Mas aí, quando esbarra no conteúdo, a nhaca aparece. Filme furado, com pretensão lá em cima. Pff. Vai aí abaixo a crítica, em mais toques. Esta intro, na verdade, foi só para poder usar o primeiro parágrafo, que não lembrei de incluir no texto original.

A concepção
(publicado originalmente @ Omelete)

Exercício de suposição abstrata: se A concepção (2006) chegasse à TV aberta, sua sinopse seria algo como “uma galerinha do barulho que vai aprontar altas travessuras nas suas férias de verão, deixando todo mundo de cabelo em pé”.

Esse padrão boboca das chamadas globais serve bem para resumir a profundidade deste filme, primeiro do diretor José Eduardo Belmonte a desembarcar no circuito comercial. Apesar de ganhar pontos pelo ótimo trabalho técnico que chega à tela, A concepção se suicida com seu esforço em chocar a audiência – sexo, drogas, desbunde desenfreado, toda essa patacoada que não impressiona mais ninguém há um bom tempo – enquanto mergulha em um balde de verniz em que se lê “filosofia barata”.

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Losing my edge

16/05/06

Meia dúzia de linhas sobre o LCD Soundsystem no Skol Beats.
Melhor show gringo (que eu tenha visto) do ano, ali ali com Franz Ferdinand.

LCD Soundsystem @ Skol Beats 2006, foto Della Rocca

O rock na praça de alimentação
(publicado originalmente @ Omelete)

Já faz tempo que música eletrônica não é uma coisa moderna. Depois de ser digerida por todos e sua presença virar regra, e não exceção, em qualquer lugar, o estilo beira a banalização. Então fica difícil, para um leigo perdido, a missão de separar o joio do trigo, os “DJs quem?” dos tops de linha, em um evento como o Skol Beats.

Shopping do estilo, com direito até a marca segmentada de pirulitos, o festival é um exagero – dezenas de nomes simultâneos em uma área monumental, coisa impossível de se acompanhar a pé. Nas declaradas três toneladas de vinis, os curadores querem atender desde os insiders, que conhecem o último single daquele produtor franco-belga, até os drogaditos de plantão e os cybermanos que engolem qualquer bate-estacas.

Na sua edição 2006, o SB melhorou sensivelmente a escalação, em comparação com a do ano anterior. Escalou o onipresente Tiga e a boa improvisação do quarteto The Bays, olhou para o minimal, ressuscitou a pária tenda dedicada ao trance, deu uma casa própria para a estrela brasileira Marky, resgatou o Prodigy dos anos 90 e ainda encerrou com clássicos da produção paulistana: Anderson Noise vs Mau Mau. Resultado: 60 mil ingressos vendidos feito água e um festival superior.

Mas a atração que mais representava o frescor da eletrônica para as massas não iniciadas era exatamente aquela que resgata o estilo da mistura banal: o coletivo nova-iorquino LCD Soundystem e seu, vá lá, rock eletrônico.

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