Vive la Fête @ São Paulo, o show

Vive la Fête @ SP, foto Adelaide Ivánova 

O Vive la Fête tem uma estranha história de amor com o Brasil. A dupla belga, formada em 97, passeia em um universo fora do circuito indie europeu, mas à margem do hype industrial. Ganhou notoriedade no começo dos anos 2000, quando virou xodó do mundo jetsetter da moda, tocando ao vivo em grandes desfiles e recebendo elogios rasgados de estilistas. Ao mesmo tempo engrossou o coro do neo electro safado, adotado pelos modistas na época e enterrado hoje em dia.

Por aqui, escorrendo para fora do ambiente fashion, Els Pynoo e Danny Mommens foram atração do festival pernambucano Abril pro Rock, em 2004. Surpreenderam audiência e crítica, conquistaram aqueles que olhavam torto para a “dupla de electro-rock” e saíram do palco abençoados. Mas, como tudo parece precisar de uma consagração no sudeste cabotino, ainda faltava a aprovação ao vivo da paulistada.

Vive la Fête @ SP, foto Adelaide Ivánova 

Atração máxima de uma ação patrocinada pela marca Chilli Beans (que está se lançando no ambiente de shows e promete nome gigante para o começo do ano que vem), o Vive la Fête tocou por duas noites em São Paulo.

Electro-rock é rótulo pouco para a dupla. Como eles mesmo assumem descaradamente, são uma versão modernizada – e mais escrachada – do casal francês Serge Gainsbourg-Jane Birkin, famoso pelos seus duetos pop-eróticos, que marcaram a chanson no imaginário mundial. Na sua discografia (toda com edição nacional), misturam as bases eletrônicas tosquinhas à influência punk nas guitarras, soando góticos ou sexies ou simplesmente bobos. Não à toa, sua maior inspiração vem dos anos oitenta.

Mas a preocupação do VlF vai além da pose. Em encontro com a imprensa, dias antes do primeiro show, Mommens fez questão de frisar sua política anti-“música de laptop”, que faz a alegria de tantas bandas pop contemporâneas: “De que adianta fazer uma música boa se você não consegue tocá-la ao vivo? É uma enganação!”.

Ao vivo, a banda segue essa política à risca. A dupla principal ganha o estofo de baixista, tecladista e baterista, além da guitarra de Mommens e da base eletrônica quase abafada. E o resultado da estréia dos belgas em São Paulo foi mais punk do que muita banda que adota esse velho rótulo, mais até que a apresentação do próprio Iggy Pop, ano passado.

Muito do vigor do show, justiça seja feita, se deve à presença de Els Pynoo, que se apossa do melhor espírito Debbie Harry. Com a franja na cara, um micro-vestido e uma meia arrastão cobrindo suas varizes, a loira encarna a femme fatale que hipnotiza qualquer platéia, gritando ao microfone, dançando, fazendo pose e tocando um chocalho inexpressivo. Debochada, sexual, elétrica, conquistadora. Pynoo é a miss adjetivos.

Vive la Fête @ SP, foto Adelaide Ivánova

A banda entrou no palco depois de uma espera ao som de Velvet Underground e um longo trecho de O lago dos cisnes – contrapontos bizarros à eletrônica hardcore desovada pelos DJs que abriram a noite –, começando com “Nuit blanche”. A música, que abre o terceiro álbum do VlF, dá a tônica da apresentação da dupla belga, com o seu refrão-ordem: “Eu digo ‘viva a festa’!”.

No repertório, o grupo fez um belo apanhado de suas melhores faixas (“Maquillage”, “Noir desir”, “Schwarzkopf”) e percorreu seu último disco, Grand prix (“Sabrina”, “La verité”, “Hot shot”). Faltaram clássicos do universo vivelafeteano, como “Je ne veux pas” e “Tokyo”. Mas o show ali não era realmente para grandes fãs da banda, então ninguém deve ter se importado.

Reconstruído na cara da audiência, o repertório do VlF ganha um vigor que não aparece nos álbuns. As letras em francês, muitas vezes repetitivas, viram só palavras de ordem para reger a catarse coletiva. E o tumtum electro é varrido para baixo do tapete acústico.

Sem pudores, a banda também abusa do contato físico com a arena. Tanto que Mommens quase ficou sem guitarra, ao jogá-la na platéia. Ela foi devolvida depois de súplicas do roadie, o cabo do amplificador já completamente devorado. No ápice final do show, já sem Pynoo no palco, o guitarrista passou instrumento e microfone para convidadas que arrancou do gargarejo. Uma delas é Joana Ceccato, vocalista da banda Biônica, de São Paulo, que assumiu a barulheira punk indie.

No bis, pontuado por “2005”, Mommens fez questão de esnobar seu espírito de guitarman, tocando passagens rápidas de vários covers (incluindo “Jesus Christ superstar”). Mas àquela hora, nada mais precisava ser provado. O Vive la Fête merece seu cantinho no efêmero panteão pop dos anos 2000. E a paulistada assinou embaixo. Como se realmente fosse importante.

(publicado também @ Omelete)

Uma resposta to “Vive la Fête @ São Paulo, o show”

  1. ivi Says:

    Faltou dizer que eles foram a única banda que tocou duas vezes na mesma edição do APR – o show da sexta foi tão bom que eles foram “forçados” a tocar de novo no domingo, substituindo uma banda (não lembro qual), que deu o cano no festival.

    E foi massa!

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