Mais cantora que estilista

Só no Rio de Janeiro você pode ir a um desfile de modas e dar de cara com alguém como Nervoso sentado na primeira fila, ao lado dos VIPs habituais do mundinho fashion. Mas o contexto, ali, fazia sentido: era a primeira apresentação oficial das roupas da cantora-estilista Nina Becker.

Nina Becker, foto Charles Naseh

Nina, mais conhecida pela sua participação no combo Orquestra Imperial (ao lado de Thalma de Freitas e outros oitocentos músicos cariocas), convocou a imprensa e convidados, na manhã deste sábado, para um cenário sui generis: o interior do Teatro Dulcina, ambiente escangalhado em plena Cinelândia. 

Inaugurado na década de 30, a casa já foi ícone da modernidade teatral carioca. Hoje, enqüanto espera uma reforma urgente da prefeitura, é um ambiente derretido e caindo aos pedaços, charmoso para quem gosta e cenário ideal para, hm, "eventos alternativos".

Alternativos como Nina, musa ruiva da música fluminense. Dentro da mega-estrutura do Fashion Rio, entre velhos estilistas e marcas bilionárias, ela é um peixe fora d'água. Uma estilista que é cantora que é designer que é cenógrafa. Sua grife é fruto de hobby, que tenta agora arranjar atenção.

A trilha sonora do desfile foi produzida ao vivo, em um dos raros shows solo de Nina. Ela e sua banda, agora batizada de Super Luxo (Gabriel Bubu, Marcelo Callado, Ricardo Dias Gomes e o essencial Nelson Jacobina), tocaram espalhados nos balcões frontais do teatro.

A banda Superluxo, foto Eduardo Viveiros

Depois de um atraso de mais de hora – problemas com modelos, com a cenografia e, aparentemente, com o próprio sistema de som -, Nina acalmou os ânimos da irritada platéia com uma introdução sussurrada à base de "Lágrimas negras", parceria de Jorge Mautner com Jacobina. Durante o desfile, duas composições de Nervoso: "Vossa autoria" e a pérola "O bom veneno". Uma bela simbiose entre as duas facetas da moça, ao microfone e na passarela improvisada.

No fim das contas, porém, a moda proposta por Nina conseguiu parcos elogios. Mas se as roupas ainda precisam de um longo caminho (e muito foco), ela se mostrou uma cantora que deveria receber mais atenção, com voz redonda e identidade construída.

Nada contra a Orquestra Imperial. Mas está mais do que na hora de a senhorita Becker se liberar um pouco do foco fragmentado nos shows do grupo e investir de verdade na sua carreira solo, aproveitando a gama de bons compositores que orbitam o mesmo universo que ela. Liberar seu verdadeiro talento e dar a cara a tapa.

As roupas, então, podem ser só um hobby de luxo.

Uma resposta to “Mais cantora que estilista”

  1. jose antonio Says:

    por favor, gostaria de saber onde posso comprar os últimos dois cds da nina, o azul e o vermelho. obrigado.

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