Velho mestre

Aproveitando o ensejo de filmes da semana passada, vai aí textico sobre o documentário protagonizado por Gianni Ratto, que morreu em dezembro.

Top da última Mostra, e estréia agora no circuitinho. É de chorar.

Gianni Ratto

A mochila do mascate
(publicado originalmente @ Omelete)

Boa parte da audiência deve lembrar de Gianni Ratto como o velho defunto do elevador em Sábado, filme-sensação de Ugo Giorgetti de 1995. Mas sua marca no mundo das artes brasileiras vai para além dessa aparição relâmpago nos cinemas. Pedra fundamental do teatro nacional, Ratto tem agora sua trajetória registrada no documentário A mochila do mascate, primeiro longa da diretora Gabriela Greeb.

O currículo deste mestre, falecido aos 89 anos no fim de 2005, não é modesto. Nascido na Itália, fez seu nome como cenógrafo e fundador do lendário Picollo Teatro de Milão. Radicado no Brasil em 54 – "fugido da Itália", como ele mesmo diz –, Ratto ajudou a consolidar um teatro que respirava o Brasil moderno. Acumulando o papel de diretor, encabeçou o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) e a Cia. Maria Della Costa, e fundou o Teatro dos Sete – seminal grupo teatral dos anos 50/60, que reunia nomes como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Sérgio Britto e Fernando Torres.

Somado ao trabalho nos palcos, Ratto foi personagem forte na luta pela política cultural do país, além de ter cinco livros publicados, sendo o mais importante deles o Antitratado da cenografia, obra fundamental no estudo da área.

É no resgate dessa "pequena" história que o filme se constrói. Ratto, à época das filmagens com seus movimentos debilitados, é guiado pela filha em uma viagem atrás de suas marcas no Brasil e na Itália, seus dois países.

O registro de Gabriela é primoroso, deixando a memória do italiano fluir solta pela tela. O documentário é uma aula de teatro, principalmente nos momentos em que Ratto disseca seus trabalhos em croquis e divaga sobre essa arte, visita o Alla Scalla em Milão ou reencontra velhos companheiros da área. Sua fase brasileira é garantida com depoimentos de Fernanda Montenegro e Maria Della Costa e num bate-papo com Millôr.

Os momentos que escancaram o baú pessoal de Ratto são os mais emotivos, quando o monstro do teatro sai de cena e dá lugar ao homem de quase noventa anos, que visita o velho colégio italiano e relembra a mãe, morta depois de anos sem ver o filho.

Apesar de ser um nome que tem sua obra restrita ao meio teatral, Ratto é o personagem perfeito para um documentário, e o resultado final de A mochila do mascate é palatável para qualquer tipo de público. Nada mais justo para um homem que foi tão importante para o palco brasileiro e que é classificado por Dario Fo, teatrólogo italiano laureado por um Nobel de literatura, como "um mito".

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