Losing my edge

Meia dúzia de linhas sobre o LCD Soundsystem no Skol Beats.
Melhor show gringo (que eu tenha visto) do ano, ali ali com Franz Ferdinand.

LCD Soundsystem @ Skol Beats 2006, foto Della Rocca

O rock na praça de alimentação
(publicado originalmente @ Omelete)

Já faz tempo que música eletrônica não é uma coisa moderna. Depois de ser digerida por todos e sua presença virar regra, e não exceção, em qualquer lugar, o estilo beira a banalização. Então fica difícil, para um leigo perdido, a missão de separar o joio do trigo, os “DJs quem?” dos tops de linha, em um evento como o Skol Beats.

Shopping do estilo, com direito até a marca segmentada de pirulitos, o festival é um exagero – dezenas de nomes simultâneos em uma área monumental, coisa impossível de se acompanhar a pé. Nas declaradas três toneladas de vinis, os curadores querem atender desde os insiders, que conhecem o último single daquele produtor franco-belga, até os drogaditos de plantão e os cybermanos que engolem qualquer bate-estacas.

Na sua edição 2006, o SB melhorou sensivelmente a escalação, em comparação com a do ano anterior. Escalou o onipresente Tiga e a boa improvisação do quarteto The Bays, olhou para o minimal, ressuscitou a pária tenda dedicada ao trance, deu uma casa própria para a estrela brasileira Marky, resgatou o Prodigy dos anos 90 e ainda encerrou com clássicos da produção paulistana: Anderson Noise vs Mau Mau. Resultado: 60 mil ingressos vendidos feito água e um festival superior.

Mas a atração que mais representava o frescor da eletrônica para as massas não iniciadas era exatamente aquela que resgata o estilo da mistura banal: o coletivo nova-iorquino LCD Soundystem e seu, vá lá, rock eletrônico.

O LCD é uma invenção da cabeça do nerd-criativo James Murphy. Depois de passar os 90 sem emplacar uma carreira sólida, Murphy apareceu em 2002 com seu primeiro single “Losing my edge”, uma poesia beat sobre sua frustração indie (ou uma grande piada, como diz o outro lado da história), e foi adotado pelos moderninhos de lá e pelos modernóides de cá. O jeito pretensamente tosco de produção da sua gravadora, a DFA, conquistou fama e estabilidade (não à toa), dando brilho à carreira de nomes como Juan MacLean, Rapture e Black Dice, enquanto seu primeiro disco só viria em 2005.

Foi esse curto histórico que deu gás ao melhor live act desta edição do Skol Beats, que só não conquistou o técnico que passou todo o tempo jogando Paciência na mesa de som.

O LCD entrou em cena com quase 40 minutos de atraso, depois de um set antagônico do DJ Gil Bárbara, abrindo o show quase ambient, na base de maracas, com “Yr city's a sucker”, evoluindo devagar para o barulho. Na sua versão ao vivo, o LCD abusa da influência no wave, com os riffs quebrados de guitarra, a melodia quase inexistente e os gritos estridentes de Murphy, apoiado em um sexteto. É rock produzido como música eletrônica, traduzido como rock. Dá pra entender?

Não demorou para aparecerem os hits – “Daft Punk is playing at my house”, “Beat connection” e “Tribulations” – enquanto o simpático líder tentava conquistar a atenção dos chatos covers de Keith Flint na platéia. O pobre baterista (“Pat!”) teve que ser apresentado quatro vezes, até arrancar aplausos tímidos.

No final da curta apresentação, depois de “Losing my edge”, a banda finalmente angariou alguma interação, com o irresistível iéiéié de “Yeah”, e saiu do palco rapidamente, deixando no ar o frisson, para quem quisesse ver, do futuro do bom (e inteligente) pop.

Um erro de percurso da organização, porém, barra uma comparação desejável com o show do Prodigy, que começaria dali a uma hora, futuro do pretérito noventista. Era óbvio que a maior parte dos ingressos foi absorvida pelos fãs da banda porradesca. Faltou pensar, porém, que dezenas de milhares de pessoas não cabem no canto dedicado ao palco. Quem resolveu arriscar uma água antes da apresentação dos ingleses passou, no mínimo, meia hora afogado em meio à turba, sem conseguir sair do lugar. Depois de uma seqüência de desmaios, furtos e discussões, Liam Howlett e cia. acabaram reduzidos a silhuetas ao longe. Uma pena.

. LCD Soundystem
. DFA Records
. Skol Beats

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